Ensaio Crítico | 1ª Exposição de Cartazes do Cinema Português

1.2.17

Estiveram expostos, em quatro espaços diferentes cartazes do cinema português entre 20 de Outubro e 30 de Novembro de 2016. Cada localização tinha um foco dentro do tema e esse ensaio é relativo apenas ao núcleo exposto na Sociedade de Belas Artes, referente aos cartazes de filmes produzidos após a era do cinema mudo.

Em uma sala apropriadamente iluminada e com expressa, logo a entrada, permissão para fazer livres registos digitais encontrava-se o maior núcleo da exposição. Ouvia-se ao fundo música portuguesa e o que pareciam ser falas de filmes. A ideia era simples, criar uma atmosfera em que se via, ouvia, respirava e celebrava arte portuguesa. Essa celebração começava no reconhecimento tanto dos cineastas como dos designers gráficos com a separação da sala.

A declaração da relação entre o cinema e as artes gráficas foi feita por nomes escritos a negro sobre a parede branca. Seja com apenas um cartaz ou com até cinco sob o seu nome, caso houvesse, não era clara a hierarquia. Não se demostravam ali os melhores, mas sim os que impactam e revelam a arte portuguesa. Quando observados lado a lado os cartazes de A Estrangeira (1982) e Duas Mulheres (2010) de João Mário Grilo (1958) contrastavam com os de Vai e Vem (2003) e Recordações da Casa Amarela (1989) de João César Monteiro (1939-2003). Nos do primeiro cineasta via-se um tom minimalista com recurso a tons sóbrios ao passo que o segundo trazia mais cores e complexidade. As décadas que separam as obras são aqui irrelevantes para a essência da representação de quem as criou. Com esse e muitos outros contrastes e semelhanças deixava-se evidente a diversidade e a criatividade dos cartazes naquela sala.

 Cartaz de Vai e Vem (2003) de João César Monteiro | Cartaz de Duas Mulheres (2010) de João Mário Grilo


Os cartazes refletiam para além dos seus feitores a identidade de um tempo e de um lugar. A transição entre a fase dos cartazes desenhados e com letras coloridas, para as fotografias e desenhos mais contidos decorria ante os nossos olhos. Sem nunca ter assistido a maior parte dos filmes cujos cartazes estavam expostos era-me permitido imaginar enredos apenas pelas suas imediatas representações gráficas e títulos. E a partir daí retratar o povo português, seus costumes e particularidades em determinado momento. A narrativa portuguesa encontrava o seu lugar nessa exposição, mesmo quando era apresentada em outro idioma ou adaptada de uma história estrageira. Em molduras castanhas ou brancas estavam encerradas mostras de percursos e experiências com as quais os espectadores se podiam identificar.

Tendo em conta que em muitas ocasiões, principalmente em relação aos filmes mais antigos, essas representações eram o primeiro contacto que se tinha com a obra cinematográfica, era essencial que fossem diretas e efetivas ao comunicar. Diferente da atualidade em que dispomos de várias mídias e formatos para se conhecer, compreender e analisar um filme por vezes antes mesmo de assisti-lo, para muitos dos que foram ali representados os seus cartazes eram a única alternativa. Como no caso do filme O Costa do Castelo (1943), realizado por Arthur Duarte, que esteve presente com dois cartazes com retratos dos personagens e coloridos quando o filme era a preto e branco. Cada detalhe das obras penduradas naquelas paredes davam sinais do que esperava o espectador.

Cartazes de O Costa do Castelo (1943) de Arthur Duarte

Nas duas ocasiões em que estive na sala dessa exposição, em horários diferentes, não havia nela mais de sete pessoas simultaneamente. Mas todas as pessoas que por lá passaram enquanto eu estive presente deixaram-se ficar por muito tempo. Deixaram-se admirar pelos cartazes. Analisaram as obras com o seu tempo e gosto. Fixaram o conteúdo daquelas molduras enquanto ouviam a música de fundo. A maior parte dos indivíduos que ali esteve não era de nacionalidade portuguesa, mas dispuseram-se a contemplar a arte portuguesa. Deram valor com sorrisos trocados e chamadas de atenção ao que estava exposto. A premissa dessa exposição era exatamente valorizar os indivíduos que marcaram o seu tempo e a sua arte e continuam a fazê-lo. Naquela sala de paredes brancas não foi apenas exposto o cinema português através dos seus cartazes. Foram expostas e celebradas a arte, a cultura e a vida dos portugueses. 

Nota da Editora Baixinha: texto produzido para um trabalho da unidade curricular Arte e Arquitetura.

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