Recomendação da Inconstante | 12 | Distopias Clássicas

27.9.15

Sabem o que uma pessoa inconstante faz para se entreter? Cria auto-desafios. E adivinhem só quem é adepta dessa modalidade desportiva. Ninguém mais que a dona dos dedos que agora vos escrevem. Por isso mesmo propus-me a ler, de 15 de Julho à 30 de Setembro, três distopias clássicas. Para os alheios a expressão criada por esses dois termos passo a explicar. Distopias são representações da antítese da utopia. No mundo literário são sociedades dominadas por uma elite e que promovem determinados moralismos, cujas raízes residem na atualidade. E clássico, nesse contexto, refere-se a obras que transcendem o seu tempo e influenciam uma série de artistas e/ou trabalhos. Já esclarecidos, devo dizer que a escolha das três obras literárias foi relativamente fácil. Todos os livros estavam já na minha lista de leitura, limitando-se a subir o posicionamento por ordem cronológica de publicação original. Ok, vamos lá para os comentários.

1984  | George Orwell

O primeiro da lista, do brilhante autor George Orwell, é 1984. Calculo que já tenham ouvido falar desse livro como a inspiração para o programa televisivo Big Brother. Se esse não for o caso, não se preocupem que vão já perceber as semelhanças.

2Imagem obtida pelo Google Images | Imagens da autora desse blog

O livro gira em torno de Winston Smith que se propõe romper as barreiras de uma sociedade distópica controlada pelo Big Brother. As guerras inconstantes e indefinidas, tal como o excessivo zelo da classe dominante perturbam a sua paz. Mas todos os atos são consequentes quando se vive constantemente aos olhos de um  regime punidor.

Confesso que arrastei os primeiros 4 capítulos/50 páginas. Percebo que foram, principalmente, páginas de contextualização, mas senti falta da acção. No entanto Orwell tem nas suas capacidades cativar os seus leitores, e não foi diferente aqui. Do ponto de viragem ao fim do livro as coisas correram muito. Apesar disso, deu para apreciar a maneira como o autor cria mundos e vidas, que na verdade são os dos tempos que correm, e leva-nos a refletir sobre os mesmos e nós mesmos. Já me tinha apaixonado por esse aspecto da escrita de Orwell n’O Triunfo dos Porcos. E recomendo vivamente a leitura de algo da sua autoria.

 

Fahrenheit 451 | Ray Bradbury

A segunda obra lida, da autoria de Ray Bradbury, foi Fahrenheit 451. Logo no início, antes mesmo do índice, o leitor é informado que Fahrenheit 451 é a temperatura de combustão do papel. E dessa forma somos introduzimos ao tema do livro, ao mesmo tempo que aprendemos um facto interessante. E que talvez que nos sirva algum dia. 

3Imagem obtida pelo Google Images | Imagens da autora desse blog

 Há duas claras semelhanças entre esse exemplar clássico e a obra acima de Orwell. Aqui também o protagonista, Guy Montag, descobre-se inconformado com o sistema. Nesse caso, o livros passaram a ser objetos indesejados e os bombeiros, como o Guy, têm de os queimar. No entanto uma sucessão de acontecimentos despertam em si dúvidas. E tal como o seu homólogo acima, o regime não permite falhas, e Guy vê-se numa situação desconfortável.

Ainda semelhante ao livro anterior, vi-me aborrecida no início desse. E mais uma vez o gatilho foi puxado e a emoção reinou. Vamos percebendo que as pessoas não são sempre quem dizem ser e nem todas as decisões têm de ser cuidadosamente pensadas. Também somos obrigados a pensar nos aspectos das nossas vidas que ignoramos e a entender que por mais que nos pareça, nunca se está completamente só.

 

A Laranja Mecânica | Anthony Burgess

Por último li a edição de 50 anos d’A Laranja Mecânica, escrito por Anthony Burgess. Essa edição da Alfaguara é um deleite. Para além de ser o texto original, cedido pelo biógrafo do autor, inclui entrevistas, trechos do manuscrito rasurado e ilustrado, artigos do autor e de outros, e o quase necessário glossário de Nadsate (linguagem criada por Burgess).

6Imagem obtida pelo Google Images | Imagens da autora desse blog

Alex, o protagonista, começa a narrativa a apresentar-se a si e aos seus companheiros. O relato, que é-nos feito na primeira pessoa, é sobre um período jovem da vida de Alex. Nele somos perturbados pelas coisas que ele e os seus companheiros fazem, tal como as coisas que lhe são feitas. E somos apresentados a uma sociedade tomada pela criminalidade que o governo resolve combater, digamos, com métodos pouco ortodoxos. E Alex é, naturalmente, uma “vítima” dessa medida.

Desde as primeiras páginas somos transportados para um mundo recheado de violência. A vida criminosa e sem misericórdia de Alex é-nos passada de maneira transparente. O autor não se esforça para tornar o protagonista agradável. Parece que tudo o que ele quer é que o jovem seja detestável e detestado. Até que se dá um ponto de viragem no enredo. Embora nos possa parecer que o jogo mudou, Burgess não hesita em enfatizar a natureza de Alex. No entanto, para pessoas com o meu grau de insensibilidade a naturezas alheias, Alex é apenas um rapaz extremamente perturbado. Mas não desprezível. Devemos também parte da envolvência do livro ao vocabulário criado pelo autor. O linguajar da juventude pode ser confuso ao início, mas depois torna-se parte essencial do livro. Foi a primeira vez que li Burgess e aviso já que não será a última.

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