SAAL e Rossellini

18.6.15

O texto abaixo é um ensaio realizado para a cadeira de História da Arquitectura Portuguesa II. As imagens foram inseridas para o propósito de publicação nesse blog.

A premissa é simples. Aparentemente. A primeira vista relacionar o Processo SAAL e duas das obras cinematográficas de Roberto Rossellini não parece complexo. Aliás, porque o seria? As semelhanças são óbvias. Questões políticas, sociais e arquitectónicas. Essas últimas são as que interessam nesse ensaio. Afinal, é para uma cadeira do curso de Arquitetura. Mas antes de se chegar à essa discussão, é necessária uma contextualização.

Como é de conhecimento geral, entre os anos de 1939 e 1945 houve a Segunda Guerra Mundial. Creio ser escusado explicar as suas razões e principais eventos. Passamos assim para o ponto em que a guerra findou e o cartão postal da Europa são cidades destruídas. Na verdade estavam num processo de metamorfose. Porque no processo de destruição de uma cidade, a guerra cria outra. Uma que trata por tu a população que dispensa formalidades. Que narra os factos vivenciados através das vidas das pessoas. E isso é o que se observa em “Roma, cidade aberta” e “Alemanha, ano zero”, de Rossellini.

28th November 1966:  Italian film director Roberto Rossellini (1906 - 1977) attends a press conference at the Cafe Royal.  (Photo by Terry Disney/Express/Getty Images) Imagem obtida pelo Google Images

Na trama cujo cenário é a capital italiana bem apetecia ver nos créditos o nome da mesma como personagem. A sequência de desgraças que é esse filme é refletido, implicitamente, pelo estado patológico da cidade. As palavras proferidas pelos personagens são completadas por imagens precisas de Roma. Como se de uma intervenção cirúrgica se tratasse, o cenário que recebe o breve relato de toda uma população, é apresentado de maneira racional. E por isso mesmo transcende a sua categoria e mistura-se entre as pessoas. O edifício onde a família de Pina reside contrasta com o espaço ocupado pelos nazis. Sem que haja um meio-termo, os espaços são extremos do ponto em que áreas minúsculas são repartidas por uma grande família e salas espaçosas dão lugar a convívios onde abunda o oxigénio. E o cigarro. Outro ponto interessante seria a rua não apenas como cenário, mas também enquanto instrumento de guerra. Como a grande rua onde Pina é assassinada, a ponte de onde surgem os tiros que ajudam Francesco e Mafredy a fugirem do encarceramento ou o descampado onde o padre é executado. E o mesmo aplica-se a espaços como a padaria tomada de assalto ou aos túneis de fuga gerados no interior dos edifícios. Qualquer um desses locais abandona as suas primárias funções para tornar-se na moldura desses acontecimentos.

BauhausImagens obtidas pelo Google Images

No curto espaço de três anos Rossellini consegue, com o mesmo tema, retratar outra cidade de diferente perspetiva. Berlim não é ocultada dos ângulos ou apenas mostrada pontualmente. A sua destruição faz parte de grandes e pequenos planos. A história repete-se em termos de saturação espacial doméstica. Cómodos únicos servem famílias inteiras. E atinge um ponto claustrofóbico quando nas cenas, como por exemplo as do quarto da família de Edmund, o plano é fechado. É igualmente interessante assinalar o facto de edifícios fortemente danificados serem ocupados para moradia. É o caso do prédio onde reside o ex-professor de Edmund. Ambas as situações são desconexas a dos hospitais. Esses aparentam gozar de condições acima do primário.

Volvidos trinta anos e mudando de situação geográfica temos outro fenómeno, Processo SAAL. Mas mantenhamos as circunstâncias. Ou quase. Na verdade aqui não houve guerra. Mas o país – Portugal – encontrava-se com debilidades arquitectónicas, principalmente na área da habitação. O número de pessoas a viverem em situações precárias era absurdo e foi então que Nuno Portas resolveu juntar algumas pessoas e fazer algo por isso. Assim, em 1974, logo a seguir a revolução de 25 de Abril, arquitetos, engenheiros, assistentes sociais e muitos outros começaram a agir na frente de outra batalha.

1410_saal_j2_4982459125448cdb4458a9Imagem obtida aqui

Feitas as devidas sínteses apenas resta-me relacionar tais tópicos, no seu ponto comum arquitectónico. Embora tal não exista, propriamente. Não pela diferença temporal. Ou ainda pela autoria e situação geográfica. Mas porque representam extremos opostos. Nas obras de Rossellini observam-se cidades derrotadas. Entregues a um desgaste propositado. E que declaram, sem nada dizer, os infortúnios a que a sua população foi exposta. Roma mostra-se vulnerável e pronta a ser, mais uma vez, tomada. E Berlim parece ter desistido de qualquer resistência que pudesse demonstrar, pedindo apenas socorro. Já o SAAL representa a melhoria, a mudança, a esperança. É o passaporte para mais do que uma casa melhor. É a certeza de uma vida melhor. Embora isso seja discutível, porque poder deslocar a própria residência há de ter as suas vantagens.

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