Não quero um Grey

8.12.14


Nos últimos anos há um fenómeno literário que perturba a minha cabeça. Vou já avisar que não li e não tenho qualquer intenção de o fazer. Pelo título já devem ter percebido que falo de Fifty shades of Grey (que em Portugal é As cinquenta sombras de Grey e no Brasil é Cinquenta Tons de Cinza), escrito pela Erika Leonard James, que assina E. L. James. Essa grande trilogia que começou como uma fan fiction de Crepúsculo. Desde que o mundo editorial decidiu que esse livro era a sensação do momento, trabalhou arduamente a convencer pessoas de todo o globo do mesmo. Apesar de não ter sido afectada, vi muita gente a minha volta ser vítima. Mas gostar do livro nem é o problema. A questão é a maneira como essas pessoas, maioritariamente do sexo feminino, idolatram o tal do Grey. 

Se calhar alguns de vocês estão por aí perdidos e sem entender do que estou a falar. Que má educação a minha. Vou resumir a história: Anastasia Steele, 21 anos, estudante universitária de Literatura e virgem, tem de entrevistar Christian Grey, jovem endinheirado e de óptima aparência física. Depois da tal entrevista a coisa passa para o Grey propor um contrato a Anastasia, para que eles possam ter relações sexuais. O tal do contrato envolve um monte de regras que o dominador, Grey, impõe a submissa, Anastasia. Ahn, esqueci de dizer que o Grey gosta de sadomasoquismo e inclusive tem um cómodo na casa denominado Sala Vermelha da Dor. Escusado seria dizer que ela apaixona-se perdidamente por ele. Ok, feitas as apresentações passo a citar os motivos pelos quais não tenciono ler tal obra literária.

Não gosto de romances eróticos. Nunca foram a minha praia. Li um que me foi oferecido por uma amiga e tenho trauma. A base contextual era muito cliché. E apesar de ter sido decentemente escrita, não cumpria os objectivos. Digamos que mais de 60% do livro eram cenas de sexo ridiculamente adjectivadas.
Li e vi muitos vídeos de críticas. Não foram uns quaisquer. Tenho críticos literários fixos e confiáveis. Daqueles que, ao contrário da minha pessoa, usam somente argumentos literários, não recorrendo a gostos pessoais. Enfim, de um modo geral, não me pareceu apelativo. Muito pelo contrário, foram confirmados os meus medos. Escrita demasiado juvenil, a roçar a infantilidade, base contextual pobre e discussão inconsequente de assuntos delicados. E isso nos leva ao ponto seguinte.

A autora dessa trilogia é inconsequente e precisa de amadurecer a sua escrita. Sim, eu sei, não li nenhum dos livros. Mas tal como disse, tive acesso a trechos quando já estava convencida de que não o faria. Não se pode pura e simplesmente escrever um livro com rótulo adulto com a mesma linguagem que se escreve um romance para adolescentes. O excesso de diálogos rasos e o défice de vocábulos geram, pelo menos em mim, falta de interesse. A protagonista é um pessoa demasiado ingénua e cuja vida não tem sentido, aparentemente. Foi propositado, claro, para que ela se rendesse sem entraves ao cargo de submissa do seu dominador, Grey. E é aí que mais me dói. A maneira como a submissão é retratada pela autora é doentia. A jovem limita-se a acenar, dizer que sim e conversar com uma "deusa interior". Não questiona, não se impõe e parece nem perceber o que está a acontecer a sua volta. Cega por um romance, que na minha óptica apenas existe na sua cabeça, deixa-se delegar por qualquer palavra que lhe seja dirigida. E quero deixar claro que essa minha posição não tem um fundo sexista. Grey podia ser uma mulher poderosa a controlar um jovem ingénuo e eu pensaria o mesmo. Não se pode enaltecer situações como essas. Não podemos ler todas aquelas coisas que acontecem, sem o olhar crítico e analítico. Não está bem que o Grey seja uma pessoa de personalidade duvidosa e se valha do seu poder para controlar a Anastasia. E nem que a Anastasia seja essa figura com tão pouca auto-estima que acredite ser uma honra dar prazer e satisfazer alguém. Christian Grey não é Deus. Ela não tem de o servir. E a ideia de pessoas a minha volta, com discernimento suficiente para notarem isso, que não se importaram e ainda proferiram a frase "eu quero um Grey", entristece-me profundamente. E por isso eu não quero um Grey. Sei quem sou e o quanto valho. Não me sujeitaria nunca a uma situação parecida. 

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