Dor

16.8.14



- E o que queres dessa vida?

- Nada.

- Como nada? Vives para nada?

- Vivo para tudo. Mas não quero nada dessa vida. Não me acho no direito de querer mais nada. A única coisa de que precisava, a vida já me deu.

- O que era?

- Dor.

- Dor?

- Sim. Na sua plenitude. Não enquanto sensação física. Mas sentimento. O bater no fundo. O que muda o teu percurso. O maior dos sentimentos.

- Esse não era o amor?

- Não. O amor está sobrevalorizado meu caro. 

- Mas a dor não é o amor ferido?

- Não. Nunca foi. A dor tem voz própria. Consequências incomparáveis. Não apresenta riscos. Nem meios-termos. Só dois caminhos. Apenas uma decisão.

- Precisavas disso para quê?

- Para ser quem sou. Para me definir. Para correr sem olhar para trás. Para levantar mesmo sem cair. Para respirar na falta de oxigénio. Para sorrir ao meu reflexo no espelho.

- Já conseguiste fazer tudo isso?

- Tudo não. São conquistas diárias. Feridas que vão sarando. Com um tratamento intensivo.

- E no fim a dor passa?

- Não. Continua a chamar-se dor. Mas já não é o procurar do chão sem achá-lo. É a meta por cortar.

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