Luanda – A Cidade Sem História

2.4.14

Hoje começou na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, em Lisboa, um ciclo de conferências sobre Reabilitação de Centros Históricos. Confesso que não sou fã dessas conferências e nunca achei muita piada a reabilitação. Até há poucos meses quando me comecei a aperceber que a minha cidade está a ficar sem história. Essa história que me faz viajar para conhecer a das outras cidades, de outros povos, de outras culturas. Essa história que torna o tempo num espaço físico. Essa história que a Luanda que me viu nascer está a perder.

Sou estudante de arquitectura e acho bem que a cidade cresça e evolua, mas não como o têm feito. Acabaram com o Largo e o Mercado do Kinaxixi. Do Kinaxixi que Agostinho Neto, a quem chamam de Poeta Maior, se referiu no meu poema preferido de sua autoria. Condenaram a morte o Elinga Teatro. O berço e palco de muitos artistas da nossa praça. E decidiram que um Centro Comercial por baixo (ou ao lado) da Fortaleza de São Miguel é necessário. Mas o pior é que não estão a arrasar só edifícios. Estão a varrer a poeira histórica dessa cidade. Estão a apagar as velas do nosso passado para acender grandes lustres que não nos pertencem. Estão a criar o que Marc Augé chamou de não-lugares. Um sítio sem história, identidade e com o qual os indivíduos não têm afinidade.

Há uma ideia descabida que arranha-céus espelhados e centros comerciais cheios de escadas rolantes são símbolo de desenvolvimento. Talvez até sejam em alguma parte do mundo, mas não em Angola. Desenvolvimento para mim seria ter água canalizada na casa onde vivo há doze anos. Não ver gente a acordar as quatro da manhã para chegar ao trabalho as oito. Não haver lagoas cada vez que chove. Desenvolvimento seria ver planos urbanísticos a funcionarem. Problemas básicos a serem solucionados. Reabilitar a nossa baixa para que os turistas e as gerações vindouras vejam a nossa história.

Portanto caríssimas pessoas de direito e dever, deixo aqui expresso o meu descontentamento ante tais planos e decisões. E a próxima vez que acharem que tiveram uma ideia brilhante, inspirada por um projecto fascinante, pensem em quem fomos e em quem somos. E, claro, e em quem queremos ser.

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