Vida Alheia

14.8.13

Naquela noite fria de luar, tarde demais para se estar fora de casa, a hiena Helena ouviu uma batida na sua porta. Não quis ela acreditar quando a abriu e viu a coruja Cordélia. Mais assustada ficou quando viu o veado Victor e o unicórnio Yuri com ela. A memória reactivou todos os acontecimentos daquele dia. A consciência e o coração encheram-na de culpa. Mas o que a preocupou mesmo foram as possíveis consequências dos seus actos.

- Boa noite Helena. Já deves imaginar porque estamos aqui. - começou a Cordélia.


- Boa noite. Entrem e sintam-se a vontade. - tentou disfarçar Helena.


- Olá! Desculpa a invasão a esta hora, mas só acabei o turno no bar há pouco tempo. - disse Yuri com a sua habitual voz baixa e intervalada fala.


- Só quero ver até a que horas essa noite vai ser boa! - Victor não parecia nem um pouco contente por estar ali.


- Bem, como deves calcular, gostaríamos também de falar com a tua irmã Hilda. 


- Claro Cordélia, vou só chamá-la. - Helena ausentou-se da sala por breves momentos  e voltou com a Hilda atrás.


- Oi. Estão todos bem? - Hilda, ao contrário da irmã mais velha, parecia bastante descontraída.


- É óbvio que não estou bem! Depois do que fizeste ainda me vens perguntar isso? Tens uma lata! - Victor estava furioso.


- Calma que os ânimos exaltados nunca ajudaram a resolver problemas. Estamos aqui para conversar e solucionar uma desagradável situação. - interrompeu a Cordélia.


- Já sei do que se trata. - Helena estava realmente triste.


- Pois bem, poupemos tempo. Só quero que me expliquem a razão de o terem feito. - Victor estava mesmo aborrecido.


- Não é óbvio para ti? - Hilda mantinha a sua postura.


- Se o fosse não perguntaria, não achas? Não me digas que para além de fofoqueira és burra. - Victor estava cada vez mais exaltado.


- Pára Victor. Não vale a pena começar uma discussão. Vamos deixá-las explicar. - Yuri apresentava-se irritantemente calmo.


- Peço desculpas. Não sei porque o fizemos. Não tivemos quaisquer motivos. Primeiro era só para ser uma brincadeira, mas quando demos por isso tinha-nos fugido das mãos. Perdeu a graça e disse à Hilda para parar. Realmente pensei que o tinha feito até hoje de manhã. Peço imensas desculpas. - Helena já beirava as lágrimas.


- E desde quando é que inventar coisas sobre vidas alheias é brincadeira? Mas vocês não tiveram infância ou quê? - Victor já tremia de tão irritado que estava.


- Tivemos sim. E fomos muito bem educadas ao contrário de vocês. Não sabem que dois machos não podem ter um relacionamento amoroso? - Hilda continuava a achar que tinha razão.


- Olha não me faças perder as estribeiras! - Victor já mal se continha.


- Ei meninos! Assim não vamos a lado nenhum. - Cordélia tentava desempenhar a sua função de mediadora. - Vamos lá ter calma e conversar dentro da boa educação. 


Depois de quase duas horas de conversa amena, Hilda se desculpou. Reconheceu que estava errada. Não devia ter inventado que Yuri e Victor tinham um caso e muito menos propagado tal facto. E que mesmo que isso correspondesse a verdade, não era da sua conta. Porque falar sobre a vida alheia não era, propriamente, bonito de se fazer. 


Pela primeira vez escrevi uma Fábula. Tive um pouco de dificuldade em encontrar um género, mas a Wikipédia ajudou-me. 

Já agora aproveito para sugerir um livro de George Orwell que li no ano passado. É uma fábula a roçar a sátira e tem como título "O triunfo dos porcos". Muito bom, uma crítica às sociedades pseudo-democráticas com muito bom humor. 

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