O Fim da Chuva

20.2.12




Água a cair. Chuva. Cai do céu. Escorre na minha janela. Hoje não é boa amiga. Diz o que não quero ouvir. Sussurra horrores a cada gota. Diz maldades a cada pingo. Traz lembranças más. Recorda coisas tristes. Ressuscita-te.

- Está a chover!
- Vamos lá para fora.


Poucas coisas sabem tão bem quanto um banho de chuva. A água gelada em contacto com a pele. Aquela sensação de liberdade. O conforto de partilhar com alguém algo tão simples. 

- Parece que vai chover.
- Hoje não tomo banho. Estou constipada.
- Mais um motivo para te meteres na chuva.
- Não me digas que a chuva cura a constipação.
- Não, mas corres menos riscos.
- Que riscos?
- Sério, ouve. Estás constipada, se te meteres na chuva o pior que pode acontecer é piorares. Uma gripe ou mesmo uma pneumonia.
- Dito assim, nem parece mau. Tens cada teoria!
- Ainda não acabei. Já eu, se me meter ali, corro mais riscos que tu. Ainda vou passar pela fase da constipação, ou pior ainda entro logo para a pneumonia sem corpo estar…preparado.
- Hahahahaha. E que tem disse que a constipação prepara o corpo para a pneumonia?
- É mais uma teoria minha.
- Claro que é!

O vidro molhado por fora e embaraçado por dentro. O barulho das gotas no telhado. Uma queda sem pára-quedas ou amortecedores. A vontade infinita de estar ali para sempre. Mas o sempre acaba.

- Disseram na meteorologia que hoje há chuva.
- Hum.
- As nuvens carregadas e o céu cinzento confirmam.
- (…)
- Não vais te preparar para o teu evento preferido?
- Hoje não. Estou cansado.
- Arranja lá outra desculpa, porque eu mesmo estando constipada fui para a chuva.
- Não me apetece.
- Desde quando é que não te apetece tomar banho de chuva?
- Desde que disseste que hoje ia chover.
- Mas porquê?
- Porque não.
- Estás bem?
- Estou óptimo. Deixa-me em paz. É só queda de água. Quando me apetecer meto-me debaixo do chuveiro.
- Ok.

As nuvens tiram o peso da água dos seus ombros. Deixam-na cair até já não haver nada. Procuram o momento do seu alívio. Quando se sentem livres, param. Porque, afinal, o eterno não existe.

- Por que é que deixaste a janela do quarto aberta?
- Esqueci-me. Porquê?
- Porque entrou água da chuva e as minhas botas molharam.
- Espera a chuva passar e põe-nas no terraço a secar.
- Mas eu quero calçá-las agora!
- Mas não estão molhadas?
- Por isso mesmo. Por tua culpa.
- Eu já disse que esqueci-me ok?
- Custa-te assim tanto pedir desculpas?
- Está bem, desculpa. Mas não há motivo para estares tão nervosinho.
- Claro que não. As botas não são tuas. Não és tu que as queres calçar agora.
- Calça outra coisa. Até parece que só tens um par de botas.
- Não, não tenho só um par de botas. Mas quero calçar essas agora!
- Então calçá-las molhadas. Mas não me grites por isso.
- Não te grito por isso. Grito-te por teres deixado a janela aberta. Aliás, abriste a janela para quê?
- Estava a pintar e quis ouvir melhor o barulho da chuva.
- Que ridículo!
- Não acredito! Não eras tu que gostavas tanto de chuva.
- Pois, mas também pensava que ainda te amava.
- Já não amas?
- Não sei. Acho que não.
- Uau! Afinal é assim que acaba.

Tal como o limão espremido a mão e a roupa espremida na máquina, as nuvens espremem as últimas gotas de chuva. Dizem adeus ao seu farto. E quando já não há nada para sair, o limão vai para o lixo e a máquina pára de girar. Aparece o sol. Mas o arco-íris não é para todos.

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