O Caco e o Grão de Areia

24.3.10


Li na semana passada uma crónica do Paulo Coelho – “O morto que vestia pijama” – que lembrava a importância de uma companhia e a tristeza de uma solidão. Lembrei então que há uns dois anos atrás eu tinha escrito uma crónica com o mesmo objectivo, mas de maneira diferente. Só que tive um problema no computador e perdi um monte de coisas escritas entre elas, essa tal crónica. Com o pouco que lembro vou tentar reescrevê-la.

Alguém já reparou nos cacos e nos grãos de areia na rua? Pois, ver eu também já vi. Mas e reparar? Pois, mas eles existem. Da mesma maneira que neles não se repara em certas pessoas também não. As vezes até reparamos, mas não damos a devida importância.
Os cacos estão na rua. Os grãos de areia também. São desprezados por todos e mais alguns. Mas as crianças magoam-se neles. Os velhos fogem. Os adultos quase que nem vêem, mas reprovam a sua presença. Infelizmente eles não são os únicos esquecidos e excluídos da sociedade. Muita gente também é.

As vezes as pessoas podem ser muito cruéis. A crueldade não está só nas atitudes, está também nos pensamentos e nas palavras. Toda gente pode ser um bom mentiroso. Fingir que gosta, que se importa e que quer ajudar quando na verdade mal presta atenção ao problema. Qualquer pessoa daria um bom político. Seria capaz de mentir com todos os dentes, placas e aparelhos que tem na boca. Negar quando a verdade está óbvia. E levar qualquer um a pensar que a verdade é o que sai da sua boca.

Por ouro e diamantes todos lutamos, mas ninguém se interessa por um caco de vidro ou por um grão de areia. Seria bem mais fácil se o mundo fosse guiado pelo dinheiro e pelo poder – e por acaso até é , mas preferimos acreditar que é o amor que o guia. Por isso é que estamos assim.

A vida é feita de disputas. Os idosos lutam por uma reforma feliz. Os pais lutam pelos filhos. As crianças lutam por brinquedos. Os machos lutam pelas fêmeas. As mulheres lutam por igualdade. Os homens lutam por poder. Mas e pelos grãos de areia? E pelos cacos de vidro?

Quase todo mundo abre a boca para defender as coisas mais simples da vida e do mundo, mas na hora de fazer, poucos se candidatam. Agimos de igual maneira perante certas pessoas. Os mendigos são os cacos de vidro. Os sem-abrigo são os grãos de areia. Agora pergunto: Quantos de nós somos solidários com eles? Quantos de nós sequer reparamos neles como seres humanos que são? Quantos de nós pensamos neles como pessoas iguais a nós? Respondo: Poucos. Muito poucos.

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