Trajectória de vida

24.12.08

Sou a Cármen Felipa Gravas Toscano e tenho 37 anos. Sou filha única de pais separados. Quando eu tinha 6 anos o meu pai foi ao meu quarto conversar comigo e depois de muita volta disse que ia sair de casa. Lembro-me da data até hoje, porque arranquei a página da minha agendinha e pu-la no me caderno de colagens. Cerca de 9 meses depois a minha mãe apresentou-me um namorado e na semana seguinte o meu pai apresentou-me uma namorada. Era muito nova, mas entendia as coisas e sabia que eles não voltariam a ficar juntos. Confirmei isso quando o meu padrasto começou a passar noites seguidas lá em casa. No ano seguinte o meu pai terminou o namoro dele e o meu padrasto mudou-se definitivamente para a nossa casa. Após três meses e meio a minha mãe anunciou o seu noivado. Descobri que ela e o pai nunca se tinham casado. O casamento só aconteceu quase um ano depois. Nessa altura já eu tinha oito anos. Os anos se passaram e quando eu tinha 14 anos o meu padrasto também saiu de casa. Foi difícil de novo, só não foi pior porque ele não era meu pai. Dessa vez eu já entendia muito melhor as coisas. Descobri que a minha mãe o tinha traído com um colega de trabalho dele. Fiquei horrorizada e decidi passar um tempo com o meu pai. Ele vivia sozinho e a nossa relação era melhor do que a minha com a minha mãe. Mais uma vez decepcionei-me com a minha mãe. Afinal ela e o pai separaram-se pelo mesmo motivo, traição por parte dela. Aquela figura tão perfeita e sensível que eu conhecia não existia. Era uma ilusão. Aliás, passou para decepção. Vivi o resto da minha vida com o meu pai, que depois casou-se com uma mulher que tinha um casal de filhos. Casei-me aos 22 anos e fui a última das crias a sair do ninho. Também era a mais nova. Três anos depois o meu pai faleceu de doença. Mesmo não sendo minha mãe, eu ajudei a cuidar da Susana até ela falecer, dois meses depois de doença também. Aos 26 anos passei pelo pesadelo de descobrir que o meu marido tinha, já há dois anos e meio, uma segunda família. Tinha uma filha e a outra mulher estava grávida. Não sabia o que dizer aos meus dois filhos. Parece que estava a ter um deja vú. Dessa vez era ao contrário. Eu saí de casa com os meus filhos. Mudei-me para o apartamento que era do meu pai. Essa situação acabou por afectar o meu lado profissional e aconselharam-me férias. Para piorar a situação a minha mãe também morreu. Foi o pior ano da minha vida em 8 meses tinha perdido o meu pai, a minha madrasta, o meu marido e a minha mãe. Consegues imaginar aqueles momentos dos filmes, novelas e livros, que parece que o mundo acabou? Foi assim comigo, só que não era ficção. Era uma realidade muito nítida e viva. O bom da tempestade, é que depois vem a bonança. Tirei férias com as crianças, numa pequena cidade. Conheci na padaria/pastelaria, onde ia todos os dias, um homem magnífico. Para encurtar os factos, dois anos depois estávamos a viver juntos. E como na ficção, a minha vida mudou de um tempo para outro. Hoje sou feliz. Uma família fantástica. Um emprego maravilhoso. A melhor coisa que fiz na minha vida foi perdoar a minha mãe por me ter feito sofrer duas vezes.

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