Sim, eu consegui!

16.11.08

Acordei naquela bela manhã de domingo e tinha tomado a maior decisão da minha vida. Demorei cinco meses, uma semana, três dias, quatro horas, nove minutos e catorze segundos. Não sabia que optar por duas coisas fosse tão complicado. Pensava que seria bem mais fácil. Acho que preferia optar por muitas mais coisas. Mas, detalhes a parte, voltemos ao assunto central. Consegui tomar a tão difícil e importante decisão. Fui decidida para a sala. Lembro-me lindamente do momento. Era a sala da avó e o relógio batia 10:03. Nela estavam o pai e a mãe, a avó, o chato do meu irmão Mário, a insuportável da minha cunhada Neusa e o meu lindo cão Docas. Todos sentados nos sofás amarelos. Passei meses em dúvida se me mudava para Inglaterra para estudar o que queria, ou ia para o Canadá e assumia o controlo da empresa que o avô me deixou e me casava com o Paulo. Decidi-me pela Inglaterra. Ia viver a maior aventura da minha vida. Um país estranho, uma língua estranha e um monte de pessoas e locais estranhos.

Dois meses depois estava a entrar no meu novo apartamento. Era pequeno, estava desarrumado, precisava de reformas, mas era meu. Aos meus 21 anos, tinha casa própria, um noivo, uma empresa e…ah, um carro por comprar. Nem todos concordaram com a minha escolha, principalmente a mãe e o Paulo. A avó ficou radiante da vida, porque sempre disse que era muito nova para me casar e que o destino pode não nos pertencer, mas podemos influenciá-lo. O Mário e a Neusa quase explodiam de alegria porque, uma vez que abdiquei da direcção da empresa, cabe-lhes tratar disso. O pai sempre disse que tanto lhe fazia, a escolha era minha. A mãe fez um escândalo descomunal e convenceu o Paulo a chantajar-me, ou seja, tinha que escolher entre ele e a minha carreira artística. Perdi amigos, senti saudades, chorei muito, mas consegui. Passei seis anos da minha vida na Inglaterra. Aprendi e mudei muita coisa. Consegui estudar representação e música. Fiz pequenas produções, curtas-metragens, publicidades e uma novela. Participei em dois programas de televisão e três séries. Voltei para casa, casei com o Paulo, assumi o comando da empresa e engravidei. Tive um lindo casal de gémeos. Participei em duas novelas e um filme. Estava quase satisfeita, mas quis participar num filme como aqueles de Hollywood ou Bollywood. Três anos depois recebi um telefonema do meu agente na Inglaterra e a notícia que tanto esperava chegou. Fui à Hollywood fazer um casting, que na verdade eram quatro, e consegui o papel no filme. Era uma comédia romântica. Pareceu tudo muito rápido. Em coisa de um ano, ia fazer compras com os meus filhos e as pessoas me paravam na rua. O Paulo não gostava nada.

Os anos foram passando, as crianças cresceram. Hoje, com cinquenta e sete anos, olho para trás e vejo que foi a melhor decisão que tomei. Sou uma empresária e uma artista bem sucedida, uma mãe e avó dedicada, uma esposa amada e acima de tudo uma mulher feliz e realizada. Claro que muitas vezes me perguntei se tinha tomado a decisão certa. Quem nunca teve dúvidas na vida? Mas sei que acertei.

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